Lixos Literários
O lixo literário é um sintoma de vários problemas sociais e culturais de nosso país. Que um livro possuidor de defeitos de realização tão evidentes quanto os dos Paulo Coelho tenha a repercussão que eles tiveram é sinal de que há muitos fatores extraliterários em jogo.
Em primeiro lugar, tradicionalmente, literatura é algo que dá prestígio a quem tem o poder de “cometê-la”. Políticos e personalidades adoram publicar livros para acrescentar a “medalha literária” ao seu jaquetão. Publicar um livro talvez não dê status, mas demonstra poder econômico e status. É chic.
Muitos desses autores são pseudoliteratos, no sentido real do termo, ou seja, aquele que é “autor de livros” através de ghost-writers. Alguns outros são literatos de ocasião, ou seja, escrevem banalidades que têm uma repercussão apenas por causa do que eles fazem fora da literatura. Nenhum livro do José Sarney, por exemplo, teria sido resenhado em jornal se ele não fosse quem é politicamente.
Essas excrescências existem justamente porque o nosso mercado editorial é relativamente pequeno. Um livro que venda cinco mil exemplares em um ano é um sucesso porque a maioria dos livros tem tiragem igual ou menor que essa. Como o mercado é pequeno, ele pode ser facilmente influenciado pelo poder econômico: um cara que esteja disposto a se fazer famoso pela literatura pode investir algum dinheiro distribuindo um ou dois livros em cada livraria pelo país afora e conseguir desovar cinco ou seis mil exemplares em pouco tempo, especialmente se já tem um nome famoso vinculado à política, à televisão ou à música.
A consequência disso é que uma quantidade expressiva de nossa produção literária é formada por obras de qualidade duvidosa que obtêm divulgação devido ao investimento que os autores estiveram dispostos a fazer, usando dinheiro que ganharam de outras formas ou então patrocínios obtidos junto a órgãos culturais.
Com o tempo isso tem efeito negativo sobre os hábitos de leitura do povo: as pessoas se acostumam a ver livros ruins sendo publicados, acham natural edições porcas, erros desnecessários. Isso abre espaço para aventureiros com dinheiro e perseverança, como o Paulo Coelho, compositor consagrado cheio de grana de direitos autorais.
Some-se a isso que o nosso sistema educacional tem ensinado muita gente a ler, mas tem educado muito poucas dessas pessoas para a maturidade cultural necessária. A maioria dos alunos que saem de nossas escolas é analfabeta funcional ou tem graves dificuldades para ler e interpretar textos complexos. Eu sei porque já fui professor e muitas vezes me deparei com turmas nas quais ninguém, aparentemente, era capaz de decodificar o texto do livro didático de História.
O livro ruim é reflexo de um leitor ruim. Um leitor semianalfabeto procurará coisas fáceis de ler. Letras grandes, livros finos, temas aos quais já esteja familiarizado, gramática simples, coloquial, com frases na ordem direta, vocabulário limitado. É triste, é ofensivo, mas é verdade: certos tipos de livros só conseguem agradar a quem não sabe ler bem porque quando você adquire fluência na leitura as características desses livros passam a ser tropeços para você.
Somando o leitor ruim a uma cultura na qual o livro enquanto objeto é tão ou mais importante do que o livro enquanto obra, temos autores que se gabam de vender muitos livros, de escrever muitos livros, como se isso os tornasse grandes.
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Página criada em 07/02/2010 e atualizada em 07/02/2010