Mistério Islandês

Originalmente postado na comunidade Novos Escritores do Brasil em 21/09/2009


Fjálar saiu de casa em Reykjavík em outro dia cinzento, apesar da aproximação do verão. Já sabia que Oláfur não apareceria para trabalhar e teria de, mais uma vez, cumprir as tarefas dos dois. O maldito beberrão estaria certamente em casa com uma terrível dor de cabeça depois de outra noite de apostas e de envolvimentos suspeitos em alguma espelunca do porto. Recebera uma mensagem no telefone, algo bem simples: “Takk, vinur. Não vou trabalhar hoje, estou em algo grande.”

Todos no departamento de polícia sabiam que Oláfur estava perigosamente próximo do alcoolismo, mas ninguém ainda havia questionado isso porque ele sempre voltava de suas noitadas com informações preciosas sobre contrabandistas, espionagem e crimes ocultos. Algum dia talvez Fjálar tivesse pena do colega, mas naquela terça feira especialmente não. Era outro dia para amaldiçoá-lo. “Algo grande” poderia ser uma investigação ou os peitos de uma prostituta mexicana. Ou poderia ser esquiar no Vatnajokull com uma sueca solitária.

Distraído com suas reclamações, nem percebeu as luzes que piscavam na esquina até que a sirene, acionada quando ia passando, o assustou.

— Skít, Asgeir. Vai assustar a mãe!

— Góðan daginn, Fjálar. Você ia passando sem me ver, te chamei a atenção. Entra aí.

Já dentro do carro, recebeu do patrulheiro um envelope pardo:

— Notícias quentes.

— Aqui na Islândia?

Abriu o envelope e viu um cadáver. Um senhor grisalho (embora na Islândia isso seja quase imperceptível) com a cabeça destroçada por um disparo de carabina.

— Onde foi isso?

— Grafarvogur.

— Nei! Em Grafarvogur não!

— Já. E você não nota algo familiar?

— Difícil, o resultado do disparo foi bastante “dispersivo”…

— Identificaram pelas digitais. Gunnar Davíðsson.

— Qual Gunnar Davíðsson? “Aquele” Gunnar Davíðsson?

— Ele mesmo.

Fjálar sentiu o estômago embrulhando.

— Vamos tomar um café, Asgeir?

— Nei, Fjálar. O chefe mandou que eu te buscasse e levasse à casa do velho antes das oito.

— Temos uma hora, Asgeir. Vinsamlegast! Não vou conseguir comer depois!

— Certo. Mas vamos num bar lá perto, para o caso de algo sair errado.

Quando entraram em Grafarvogur havia dois carros de polícia bloqueando a entrada de uma rua. Dois carros de polícia significavam encrenca. Ainda mais porque chegava o terceiro, levando-os.

— Maldito, Asgeir. Não vamos tomar nenhum café.

— Ordens são ordens, Fjálar.

Os dois atravessaram a barreira e se dirigiram à casa do velho Gunnar, um dos mais idosos e respeitados membros do Alþingi. Tomaram ar para criar coragem e preparavam-se para para entrar quando ouviu-se um tiro.

Segundos depois uma mulher saiu de uma casa e veio correndo em direção a eles e gritando: “Náið í lögregluna! Náið í lögregluna!”

— Calma, senhora — disse Asgeir — nós somos a polícia.

A mulher desfez-se em prantos contando que seu marido estava morto. Aparentemente acidente ao limpar sua arma de tiro.

Fjálar e Asgeir se entreolharam. Grafarvogur estava um lugar agitado naquele dia. Agitado demais para um país tão pequeno. O marido daquela senhora não era qualquer um, era nada menos que o Forseti Lýðveldiðs.

— Não estou entendendo nada, Asgeir.

— Pois bem, amigo, você dormiu tranquilamente esta noite mas o país esteve em tumulto enquanto isso. Desde ontem às 22h00 nada menos que 12 pessoas cometeram suicídio, só na capital. Todas com tiros de carabina na boca.

— Skít. Que coisa estranha. Nunca se viu algo assim na Islândia!

— Muito menos atingindo dois políticos tão importantes.

Ao entrar ouviram ao longe outro tiro ao longe

— Será um dia movimentado, Fjálar…

— Acho que sim, vinur. Vamos entrar logo nessa casa e fazer nosso trabalho.

Lá dentro, em prantos, estava Oláfur.

— Faðir! Faðir!

Fjálar levou a mão à testa: “Oh, como nunca pensei nisso. Oláfur Gunnarsson”.

Caso ninguém tenha notado, trata-se de uma sátira ao hábito dos jovens escritores de ambientarem suas histórias em um país estrangeiro, dando nomes estrangeiros aos seus personagens e introduzindo excesso de palavras estrangeiras. Para mim, todo país estrangeiro é exótico. Mas tem autor brasileiro que acha que exótico é o Brasil.


Copyright © 2000–2009 by José Geraldo Gouvêa

Página criada em 30/11/2009 e atualizada em 27/01/2010

Add Comment 
Sign as Author 

Green Marinee theme adapted by David Gilbert, powered by PmWiki